quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ROLANDO E AS LIGAS




Nos tempos de jogador, o pivô Rolando vibrou com a conquista do Pan-Americano em 1987 e teve a honra de ser o primeiro brasileiro escolhido no draft da NBA. Hoje, aos 44 anos, ele continua ligado ao basquete, como professor e técnico em Curitiba, onde ainda coordena um centro de desenvolvimento da modalidade com cerca de 700 crianças. Em março desde ano, Rolando terminou seu mestrado em Educação Física, com uma dissertação sobre o tema NBA, CBB e NLB: Relações de poder no universo organizacional do basquete brasileiro (clique aqui para baixar o arquivo, a dica foi do Guto Sousa, que está sempre na caixinha). Com a autoridade de quem estudou a fundo os torneios ao redor do planeta e investigou a experiência da Nossa Liga, o ex-pivô bate um papo com o Rebote sobre o novíssimo projeto dos clubes brasileiros.

REBOTE - A Liga Nacional acaba de sair do forno. Pelo conhecimento que você tem após estudar o assunto, desta
vez há mais chances de dar certo ou riscos de dar errado?

ROLANDO - Creio que terá mais chances de dar certo, porque a CBB está do lado dos clubes, o que não aconteceu na tentativa com a NLB. A discordância da CBB provocou um racha na NLB. Além disso, a nova liga tem o apoio da Rede Globo.

- Até que ponto a resistência da CBB pesou no fracasso da NLB? E que lições podem ser tiradas para o novo projeto?
- A Nossa Liga não vingou principalmente porque a CBB não apoiou. Ela conseguiu trazer para o seu lado os clubes de maior tradição, os mais ricos, fazendo com que a NLB tivesse um nível técnico bem abaixo do esperado. A maior lição foi a de que temos que trabalhar juntos para que o basquetebol - e apenas o basquetebol - se fortaleça. Deixar de lado objetivos pessoais.

- Na sua dissertação, você defende que os modelos estrangeiros de sucesso sejam adaptados à realidade brasileira. Que aspecto nós podemos aproveitar de ligas como a NBA, a italiana e a espanhola, que você estudou durante o seu trabalho?
- Alguns aspectos já vão ser usados desde o inicio desta nova liga. A CBB só vai cuidar da transferência de atletas, da arbitragem e das seleções nacionais, deixando o resto da organização para os clubes, como acontece na Europa. Não sei ao certo, mas acho que as equipes da liga terão que comprar cotas para participar do campeonato, como se fossem franquias. Sobre outras coisas, teremos que esperar para ver. Não podemos só vender o produto basquetebol, mas sim um espetáculo como acontece nos EUA. Temos que ter promoções, sorteios, brindes para atrair o espectador. É óbvio que temos um longo caminho a percorrer, mas devemos fazer tudo de acordo com a nossa estrutura.

- A CBB terá eleições em maio. O que você espera?
- É de extrema importância que a pessoa que vier a ocupar o cargo de presidente da CBB não se afaste da Liga e continue dando apoio como foi mostrado até agora. Gostaria de ver uma estrutura mais profissional, onde todos fossem remunerados, recebessem um salário para gerenciar o basquetebol, para que pudessem ser cobrados. Espero também que o novo presidente dê mais importância às categorias de base, à massificação do basquetebol. Necessitamos urgentemente de um programa de massificação sério para que tenhamos material humano e possamos ter seleções fortes em todas as categorias.

6 comentários:

Giuliano disse...

Até quando teremos caras como o Rolando fora da alta direção do nosso basquete?

Guto Sosua disse...

Rodrigo, a entrevista tornou-se bastante esclarecedora nesse momento (seu timing foi perfeito).

Uma pulga que alojou-se atrás da minha orelha desde ontem está insistindo numa pergunta:
A CBB tinha contrato com a Globo (SporTV) para a transmissão dos nacionais. Como o NBB tem a chancela da CBB, nada mais normal que a Globo tenha os direitos de transmissão do NBB, mas será que a CBB realmente abriu mão de toda a grana que recebia do SporTV, ou houve algum acordo entre Globo, LnB e CBB para eles dividirem esse dinheiro?

Jônathas Waldhelm disse...

Muito boa a entrevista.

"Espero também que o novo presidente dê mais importância às categorias de base, à massificação do basquetebol."

e eu espero que seja realmente um NOVO presidente.

Ricardo "Tio Zeca" Stabolito Jr. disse...

Caras como o Rolando devem estar entre os dirigentes do basquete brasileiro. Ele une o conhecimento de quadra - o amor pelo esporte - com o conhecimento acadêmico. Certamente, baixarei sua tese para ler.

Muito raro termos uma pessoa tão embasada para falar sobre a situação atual, sobre a construção da atual Liga, como o Rolando no Brasil.

jotapê disse...

Lerei a dissertação.. mandou bem na entrevista!
ps: o que é 'timing'? hahahahha

Guto Sousa disse...

JP: faz algumas semanas que tinha indicado essa dissertação ao Rodrigo e ele gostou e disse que ia tentaentrevistar o Rolando num momento oportuno. Não havia momento mais perfeito do que após o lançamento da Liga nacional de Basquete e do NBB. "Timing" é em inglês, mas tb. usada em português, significa uma coisa feita "na hora certa", no melhor momento possível. "Stockton e Malone tinham um timing perfeito pra pontes-aéreas", p. exemplo.