O presidente da Liga Nacional vai ter bastante trabalho pela frente
A menos de três semanas do início do Novo Basquete Brasil, é tempo de correr. Da vistoria nos ginásios à implantação de um sistema antidoping, passando por alguns acerto de detalhes no contrato com a TV, a Liga Nacional ainda tem muito a fazer antes de a bola subir. E para deixar o trabalho ainda mais complexo, a crise financeira ainda resolveu cumprimentar alguns clubes. Em entrevista ao
Rebote, o presidente Kouros Monadjemi fala sobre tudo isso. Por telefone, ele explica a ausência dos nordestinos, avisa que as meninas só devem entrar após três anos, promete punições severas em questões disciplinares e diz ser impossível, no meio da correria, pensar em homenagem aos bicampeões mundiais. O papo é longo, mas o debate é bom e necessário.
- REBOTE - Na quarta-feira, a Folha de S.Paulo afirmou que a Liga fechou um patrocínio da Eletrobrás. Já está certo?- KOUROS MONADJEMI - Ainda não existe valor, nada está definido. O que existe é a expectativa de que o patrocínio aconteça. Devemos assinar o contrato ainda neste mês. A Eletrobrás investe
no basquete e tem o interesse de ver a modalidade crescendo. Tudo indica que nós teremos um bom desfecho.
- Falando em dinheiro, como vai ser a divisão dos custos do campeonato? No dia-a-dia, o que os clubes terão de bancar? - O custo do campeonato está nas mãos de cada clube. Cada
um tem o seu patrocinador e, dentro disso, eles arcam com a logística - hospedagem, viagem, transporte, parte médica, taxas de arbitragem. Agora, obviamente, a exposição do esporte na mídia vai ser maior, então os patrocínios da Liga devem melhorar. A idéia é que, em pouco tempo, a Liga cubra os principais custos.
- Alguns clubes atravessam uma grave crise financeira.
O Flamengo, atual campeão nacional, é um deles. Assis disputou o Paulista, mas vai para o NBB com um elenco mais fraco. Esses problemas pontuais vão prejudicar o primeiro ano do NBB? - Não tenha dúvida de que vão prejudicar o esporte brasileiro de um modo geral. Esta crise econômica certamente vai afetar os orçamentos dos clubes. Assis é um caso típico. O patrocinador não tem como manter o investimento. Eles conseguiram outro patrocínio, mas perderam alguns atletas que tinham salário acima da média.
- E como fica a qualidade técnica do campeonato? - Nós tomamos muito cuidado com a qualidade das equipes.
Na LNB, não basta querer disputar. A fundação da Liga teve 19 equipes, e só 15 vão participar. E assim mesmo Assis vai entrar um pouco esfacelado. Mas esperamos que, nos próximos anos,
a Liga possa ajudar esses clubes com algumas despesas.
>>> "Londrina e Iguaçu não estão no nível técnico satisfatório para
este ano. Eles queriam entrar, mas estavam muito aquém do desejado" - As mudanças no elenco de Assis aconteceram depois da definição desses 15 times. Com a queda na qualidade técnica, o time corre algum risco de ser substituído na competição? - Não. Assis vai lutar por uma posição intermediária. Na mesma situação estão Araraquara e Cetaf, que têm investimento médio. Em um ou dois anos, todas as equipes vão se fortalecer.
- Falando em Cetaf, o Estadual do Espírito Santo não teve final. O Saldanha da Gama foi declarado campeão porque o Cetaf não apareceu para o jogo 1. A Liga se preocupa com isso? - Totalmente. Até porque o estatuto da Liga obriga que as equipes disputem os campeonatos regionais, inclusive com divisões de base, não apenas com os elencos adultos.
- Mas o fato de ter havido essa confusão no Espírito Santo influencia no NBB? - Não, porque o clube não precisa ser campeão para estar na Liga. Nós escolhemos os 20 maiores clubes de tradição no nosso basquete, que tenham disputado o Nacional ou que
se encaixem dentro de uma qualificação técnica. Iguaçu (foto), Londrina e Uberlândia, por exemplo, estão inativos dentro da Liga. Londrina e Iguaçu não chegaram ao nível técnico satisfatório para este ano. Eles queriam entrar no torneio, mas as equipes estavam muito aquém do desejado.
- Quem é que decide quais times que podem ou não entrar? - Essa decisão é de uma comissão técnica formada por treinadores de gabarito e hoje coordenada pelo Lula Ferreira.
>>> "O que não pode acontecer hoje é, pelo fato de ter que colocar uma equipe do Nordeste ou do Norte, obrigar 15 times a viajar até Pernambuco, Pará ou Amazonas para fazer um jogo que termina 120-40"
- O Nordeste não tem equipes na Liga. Isso também foi uma questão de critério técnico? - A Liga não existe só para meia dúzia de clubes elitizados. Nossa intenção é unir o Brasil. Mas você há de convir que, por mais que nós estejamos bem otimistas, o primeiro passo é criar o campeonato. Vamos olhar para a Liga Nordeste. Possivelmente faremos um torneio regional, para que saia o campeão de lá e dispute com equipes vencedoras do Sul, até incluir um ou dois times. O que não pode acontecer hoje é, pelo fato de ter que colocar uma equipe do Nordeste ou do Norte, obrigar 15 times a viajar até Pernambuco, Pará ou Amazonas para fazer um jogo que termina 120-40.
- E quando esse cenário vai mudar? - Temos que cuidar do Nordeste para fortalecer essas equipes. Acho que, em cinco anos, poderemos ter condições de trazer alguns representantes da região para disputar a Liga.
>>> "Quem cometer indisciplina
vai ser severamente punido"
- Nos torneios nacionais, nós costumamos ver, com uma freqüência bem maior que o normal, jogadores brigando dentro da quadra. Dificilmente eles têm longas suspensões, e a certeza da impunidade abre caminho para novos tumultos. A Liga já pensou nisso? - Sem dúvida nenhuma. Acabamos de aprovar um regulamento rígido a ponto de multar atletas por indisciplina e determinar suspensões, troca de mando de quadra. Isso vai ser colocado
em prática. Aliás, não só isso, mas também o exame antidoping. Quem cometer indisciplina será severamente punido. Tivemos uma reunião com todos os técnicos, conscientizando-os disso.
- Há um custo alto para o antidoping. Os clubes vão bancar? - Eu sei que o antidoping custa caro, mas para moralizar o esporte, é preciso estabelecer esses parâmetros. Estamos
vendo o custo real para analisar a melhor maneira de fazer.
>>> "Acho que as meninas não entram antes de três anos. Nós precisamos nos sentir confortáveis
e certos de que temos condições" - As meninas ficaram meio chateadas com a Liga, que as deixou fora da festa. Qual o plano para o basquete feminino? - Diga para elas não ficarem chateadas comigo não. Nós não conseguiríamos abraçar o mundo. A idéia do feminino não nos sai da cabeça, temos todo o interesse de fazer, mas é preciso um pouco de tempo. Vamos ganhar em organização, infraestrutura. Depois vamos tentar apontá-la para o feminino também.
- Quanto tempo vai levar até termos as meninas no NBB? - Acho que não antes de três anos. Precisamos nos sentir confortáveis de que temos condições. Precisamos levar o basquete para o seu lugar de origem, como segundo esporte mais popular do Brasil, atrás apenas do futebol. Temos que resgatar essa credibilidade porque, sem ela, não dá para viabilizar certas coisas. Nosso modelo hoje é o vôlei, que tem uma administração fantástica. Queremos chegar ao mesmo patamar. Aí sim vamos pensar em buscar o feminino. Mas vai acontecer sim, pode esperar.
- O Novo Basquete Brasil começa no dia 28 e, três dias depois, o primeiro campeonato mundial do país completa 50 anos. Vocês estão preparando alguma homenagem aos jogadores?- Não pensamos nisso não. Você não tem idéia de como está sendo difícil colocar tudo para funcionar no dia 28. Temos que fazer vistoria das quadras, terminar os detalhes do contrato com a televisão, criar logotipo nos uniformes, é tanta coisa para fazer que eu tenho medo de pensar numa festa neste momento. Seria uma pretensão muito grande. Quem sabe a gente pode fazer essa homenagem no Jogo das Estrelas, ao fim do primeiro turno.